Martim Cererê reúne lendas de fantasmas e relatos sobre a ditadura em Goiânia

3 Min de leitura

O Centro Cultural Martim Cererê, localizado no Setor Sul da capital goiana, carrega uma história que ultrapassa a efervescência artística e musical. O espaço, famoso por sua arquitetura singular composta por antigas caixas-d’água desativadas e transformadas em salas de espetáculo, transformou-se ao longo das décadas em um dos maiores palcos de lendas urbanas e mitos populares de Goiânia.

Um levantamento acadêmico conduzido pelo pesquisador Luiz Felipe Nunes, vinculado à Universidade Estadual de Goiás (UEG), debruçou-se sobre a memória oral da cidade. O trabalho investigou os relatos fantásticos que cercam o complexo cultural e outros pontos históricos da capital, revelando como a imaginação coletiva e a história política se misturam na construção do imaginário goianiense.

Memória oral do Martim Cererê e narrativas sobre o regime militar

Entre as narrativas mais persistentes que circulam na cidade está a tese de que os reservatórios teriam servido como centros clandestinos de detenção e interrogatório durante os anos do regime militar. Pelo fato de as estruturas subterrâneas e de concreto possuírem forte isolamento acústico natural, gerou-se o boato de que gritos e sessões de violência teriam ocorrido ali sem que vizinhos notassem.

Historiadores e pesquisadores pontuam que, embora o período da ditadura tenha deixado marcas reais no estado de Goiás, as alegações específicas sobre tortura no interior daquelas estruturas nunca foram documentadas oficialmente por comissões da verdade. Trata-se, primordialmente, de uma construção do folclore urbano alimentada pelo aspecto enigmático e austero da construção em concreto.

Mistérios, aparições e o imaginário cultural da capital

Além das histórias ligadas à política, o Martim Cererê também é associado a mitos de assombrações e visagens. Artistas, frequentadores e funcionários que passaram pelo espaço ao longo dos anos relatam sensações estranhas, ruídos sem explicação aparente e vultos perto dos teatros batizados de Yguá e Pyguá.

Segundo a pesquisa da UEG, esse tipo de narrativa ajuda a consolidar o pertencimento comunitário e a dar significado místico a monumentos urbanos que passam por transformações. O estudo ressalta que o folclore contemporâneo de Goiânia encontra em espaços culturais o ambiente propício para manter vivas tanto as curiosidades sobrenaturais quanto os alertas simbólicos sobre o passado sombrio do país.

Compartilhar