Preso pela segunda vez na Operação Narco Bet, e investigado por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), o contador Rodrigo de Paula Morgado vende uma história de vida de sucesso.
Morgado afirma ter saído de motoboy a dono de um patrimônio milionário “pela força de vontade de querer aprender”. Teria desenvolvido o tino para os negócios em mentorias de coachs como Caio Carneiro e Pablo Marçal, segundo ele próprio. Nas redes sociais, onde exibe uma vida de luxo, destaca que “veio de baixo” e se apresenta como “louco e sonhador”.
Em depoimento prestado à Polícia Federal em outra investigação, a Operação Narco Vela, deflagrada em abril, Morgado disse que começou a carreira como entregador em um escritório de contabilidade. Foi então que teria tomado a decisão de fazer um curso técnico e depois uma graduação na área.
Os rendimentos declarados do contador passaram de R$ 295 mil em 2022 para R$ 7,9 milhões em 2023. A variação patrimonial é considerada suspeita pelos investigadores. O rastreamento promovido pela Polícia Federal indica que Morgado é dono de imóveis, carros de luxo, como uma Ferrari, e criptoativos. Tudo, segundo ele, comprado com faturamento lícito.
A ostentação, de acordo com o contador, é parte de uma estratégia de negócio para se “conectar a pessoas do mesmo nicho e patamar de atuação”. A versão foi corroborada por seu advogado: “Para captar clientes, isso envolve também a ostentação nas redes sociais”.
Morgado é apontado como “operador logístico-financeiro” de um amplo esquema de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas do PCC. Ele foi inserido pela PF no “epicentro” dos crimes e descrito como “figura central e articulador financeiro do grupo”.
“Os elementos de prova colhidos ao longo da investigação demonstram que Rodrigo Morgado exerceu papel ativo na constituição e manutenção de empresas fictícias, formalmente vinculadas a laranjas ou pessoas sem qualquer capacidade econômico-financeira, mas em realidade controladas e operadas em favor da estrutura criminosa”, escreveu o delegado federal Raphael Soares Astini, Coordenação Geral de Repressão a Drogas, Armas e Facções Criminosas, ao pedir a prisão do contador.
“Os documentos analisados revelam que sua atuação não se restringia à mera contabilidade, mas alcançava a concepção e execução de mecanismos de ocultação de ativos, bem como a coordenação das transações vultosas que possibilitaram, entre outros, a aquisição do veleiro Lobo IV, interceptado em alto-mar (pela Marinha americana) em fevereiro de 2023 com mais de 3 toneladas de cocaína a bordo”, segue a PF.
A investigação também afirma que ele agia como “verdadeiro ‘banco particular’ de outros investigados”, entre eles o influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, o Buzeira – com cerca de 13 milhões de seguidores -, que também foi preso nesta terça-feira, 14.
“Transacionando vultosos em suas contas pessoais e de empresas sob seu controle, realizando ainda conversões em criptomoedas e promovendo repasses a terceiros, tudo a margem do sistema financeiro nacional”, diz a Polícia Federal.
A defesa de Buzeira afirma que “não há, até o presente momento, qualquer elemento concreto que comprove envolvimento do influenciador em atividades ilícitas”.
O Estadão busca contato com a defesa do contador.
Por: Estadão Conteúdo
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